quarta-feira, 5 de maio de 2010

Vias.

Quinze quilômetros* em vinte minutos é sublime. Sem chuva, sem engarrafamento, sem buzinas, sem stress, sem nada, só tu, teu carro (é carro, pq quinze quilômetros em vinte minutos de ônibus é ilusão), o ar condicionado, o som e os amigos embreagem, freio e acelerador (ou não, se for um automático). Ah, e os amigos caronas também (é, pq pegar carona é uma arte. Tu tem que ter a manha de querer sem pedir, e conseguir sem se humilhar dizendo que posteriormente pagará lanches, tickets de estacionamento, cigarros, vaquinha pra gasolina [que são outra farsa!], e etc. Estudar no campus da BR é um bom workshop pra desenvolver essa habilidade; mas isso é outra história).

Quinze quilômetros em trinta minutos é até aceitável. Passa rapidinho, tu vai ouvindo uma música (cantando, pq não?), sei lá, até mesmo conversando com o(s) carona(s) no carro (essa[s] conversa[s] não existe[m], é claro, se tu tiver no ônibus, especialmente naqueles nos quais sobem umas pessoas que te juro, não sei pq – NÃO SEI MESMO – pegam seus celulares ultramodernos com rádio FM/mp3 player e ligam naquele bregoso esperto, ou naqueles louvores fervorosos – nada contra – pro ônibus inteiro escutar. Fone de ouvido? Doce ilusão tecnológica. Fora as vezes quando o motorista resolve, pra mostrar quem é que manda, aumentar o “sistema de som” (HAHAHAHA) do próprio ônibus, geralmente tocando Roberto Carlos, se for de manhã cedo. Aham, vai, tenta conversar no meio disso, num nível audível e – vejam bem, E – saudável pras tuas pregas vocais. Eu d-u-v-i-d-o. Mas isso é outra história).


Quinze quilômetros em quarenta e cinco minutos, com uma chuva gostosa e leve, é até compreensível. Tu, paraense esperto que és, sabe que vai chover. Sabe que do centro pra lá de Ananindeua vai tá engarrafado. Vais na manha, não te afobarás. Chega uns 10 minutos atrasado na aula, mas tudo bem, o professor ainda nem entrou – ou tá fumando lá fora, ou tá ali lendo, ou tá na sala dos professores, ou descuidou da hora, ou tá resolvendo problemas de orientandos malucos e atrasados (não necessariamente as duas coisas num orientando só), ou tá tomando um café, ou etc etc etc (sim, professores também têm problemas, também não tão a fim de dar aula as vezes – dependendo da turma, quase sempr... OPA. Mas isso é outra história).


Quinze quilômetros em sessenta minutos é uma provação. E olha que to considerando como referencial a perspectiva de quem fica esse tempo todo dentro de um carro, com ar condicionado, um monte de gente pra falar contigo, pra rir das coisas próprias e alheias, e em condições de existência relativamente confortáveis. Exceto pelos caronas – TAKING A RIDE LOVERS, na minha classificação pessoal - que às vezes precisam se amontoar no banco de trás, afinal, onde cabem 3 cabem 6, não é? (“A Fulana é tão magrinha!” – ela pode pesar 90 quilos que sempre será magrinha e caberá no carro, pq por mais apertado que esteja, o carona sempre pensa “eu podia tá num ônibus lotado com 50 mil pessoas desconhecidas se esfregando [inocentemente] em mim, num calor desértico, ouvindo uma música que escolheram por mim e o pior de tudo, em pé. Tô ótimo”. Mas isso é outra história).


Quinze quilômetros em sessenta minutos, com uma chuva daquelas de arca de Noé, sozinho, é um martírio. Não existem mais estações de rádio que tu não conheças, tu já pensou em tudo que quer fazer da vida, o cd já repetiu tanto que te dá enjôo, tu é universitário e não tem DVD no carro (ah não ser que... Ah, deixa pra lá. Hehehehe), teu pé já tá doendo de tanto pisar na embreagem (se for mulher então, pior ainda – piadinha infame), tu começa a querer buzinar depois de ficar parado no mesmo lugar por mais de 8 minutos (o que tu certamentes farás, mas que não vai mudar em nada tua condição de parado no mesmo lugar por mais de 8, agora 9, minutos). Eu poderia fazer mais umas trocentas categorias pra esse parágrafo, tipo q.q.s.m. (quinze quilômetros em sessenta minutos) com chuva e de fossa, q.q.s.m. com chuva e saindo de casa 18:15h (pra uma aula que começa 18:50h...), q.q.s.m. com chuva e pouca gasolina, q.q.s.m. com chuva e um trabalho pra entregar no dia que tu ainda precisa finalizar e imprimir, q.q.s.m. sem chuva e... Opa, sem chuva não dá sessenta minutos. Mas isso é outra história.


Quinze quilômetros com chuva em mais de sessenta minutos é só desencargo de consciência. Tu vai, dá dois reais pra enriquecer os senhores do estacionamento, diz ‘PRESENTE’, às vezes lancha e vai embora.


E olha que eu até gosto de dirigir.



*Média racionalmente aleatória, que eu calculei como do centro de Belém (Avenida Nazaré à altura da TV Liberal) à Unama BR, percorrida de carro.

Um comentário:

  1. Vc realmente discreveu a nossa realidade. Como eu queria que todos os dias fosse igual ao primeiro parágrafo. E olha que eu também gosto de dirigir.

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Vai, fala.